A mulher com mais de 35 anos


Carlos Sampaio

1° Esquadrão
1° Pelotão
1976



 

Entendo as mulheres, acho que entendo, tenho certeza que elas que não me entendem. Tento fazer aquele meio-de-campo básico, ainda mais com mulheres acima de 35 anos. Elas são espertas, sabem dar rasteiras e a gente nem percebe. Depois que a geração do "estou ficando" chegou, as coisas me parecem mais sérias do que imaginei ser.

A mulher dos 35 anos é peculiar, se arruma muito, buscando para si a atenção, não dos homens, mas compete com aquela outra, é incrível essa dança do quem pode mais leva a melhor. Adoro aquelas mulheres que adotam o básico. Cabelos soltos, um batom que não provoca a competição, mas usa apenas para não deixar o rosto com jeito de “não-estou-nem-aí", sai com um tênis branco, uma camiseta branca, um jeans e, pronto. Balanço. Mulher bonita tem que ser assim, até porque sempre tentei combinar meus tênis com a situação dos meus cabelos. Não sei se é uma combinação perfeita, mas é desta maneira que ficava nos meus "tempos-lá-se-vão" e, ponto. A mulher de trinta e cinco anos já sabe o que quer. Normalmente quer dançar, saracotear, pular e por aí vai, até pode gostar de fazer sexo, mas primordial mesmo é dançar, porque recém mesmo separou-se e quer desfrutar o máximo, é a tal de querer ser a última bolachinha do pacote do biscoito “Trakinas”. Conheci a Carmen dessa forma. Observando-a dançar chamou-me a atenção, não ao fato, em seu redor, estar um monte de urubus loucos para sobrevoar o terreno, mas sem nenhuma dose de originalidade para chegarem. Um copo de cerveja e alguns segundos foram suficientes para vencer, primeiro os tais urubus, depois para atravessar aquela multidão e chegar até ela. Senti olhares masculinos repuxando narizes e torcendo que ela me desse aquele esporro natural, que só as mulheres com mais de trinta e cinco anos sabem fazer. Só saberia se fosse. Fui.

Leve toque no seu ombro e....
- Oi....
- Oi, estou dançando, sabia....?
- é, estou vendo. Separou-se recentemente?
- Como sabe disso? Parou de saracotear. Olhou ao redor, e finalmente me viu.
- Você está dando vexame, não está agradando.....
- Mas te agradei, tanto que está aqui me dizendo isso...
- Vim para dizer-te isso, estas muito doida.
- Eu sou doida, sempre fui.
- Até pode ser, mas isso não é coisa de doida, é jeito de mulher separada recentemente.
- Estou colocando os diabinhos para fora do corpo.
- Não parece!. Parece iniciação na Universal do Reino de Deus do Edir Macedo.
Ela pegou-me a mão, um sorriso gentil que jamais apareceu na sua face.

- Ok, você venceu - Disse-me.

Realmente, havia acertado as condições da Carmem. Os urubus famintos por carne fresca dispersaram-se. Alguns balançaram a cabeça como não acreditando no feito. Não sorri. Fiquei sério. Ela no decorrer do nosso relacionamento foi perfeita, sorriso franco no lugar, jeito de menina quando tinha que ser; jeito de mulher quando rolava aquela necessidade. Um dos pontos forte da sua personalidade eram as brincadeiras, nunca havia tristeza naquela mulher, levantava o astral do mais esquisito vivente. Tínhamos uma legião de amigos que faziam de tudo para que nós dois estivéssemos juntos nos mesmo lugares que eles. Ela alegrava o ambiente. Quando ficava triste por qualquer motivo preferia estar sozinha. Eu respeitava, e muito, esse silêncio que fazia com maestria, era o que mais pedia. Jamais soube quais os aborrecimentos e fantasmas que a perseguiam.

Ela me trouxe muita paz, muito do que sei hoje, agradeço essa mulher fantástica e maravilhosa, mas um ditado diz: Tudo termina um dia.

- Estou indo embora... Já é chegado o momento - lágrimas escorreram dos nossos olhos. Aquele frio repentino apareceu.

- Eu sei... Sempre soube que essa hora iria chegar – Com o peito doendo lhe abracei para a nossa eterna despedida. Jamais iríamos nos ver novamente. Era o combinado.

As mãos soltaram-se e percebi a sua energia sendo sugado de dentro mim. O coração pulou, mas fazer o quê?. O trato era esse. - Um dia terei que partir ok?

- Está bem, deixarei - respondi, na época, pensando tratar-se de uma aventura apenas. Não foi, nem para mim nem para ela.

A Carmem sempre foi direta e objetiva, com a simplicidade ela brincava com o nosso tempo, mas sempre respeitou esse limite. E lá se foi sem olhar para trás, deixando um rastro de saudades. Quando a conheci, realmente ela havia dois meses de separação. Disse-me uma separação que poderia haver um retorno, haviam combinado um tempo. Os dois se amavam, em razão disso, o tempo solicitado entre ambos havia ter certo limite, até quando o coração pedisse para voltar. Sempre soube da história desde o início. Fomos sinceros um para o outro, aliás, nosso caso perdurou nessa sinceridade mútua, um dia alguém iria embora, e o outro, seguiria em frente.

O dia havia chegado. Aceitei. Nunca mais soube notícias. Nunca mais a vi. às vezes tenho a impressão que a vejo em determinadas ruas. Só a impressão.

A mulher de trinta e cinco anos é assim. Nos deixa com a maior facilidade mesmo sendo um trato comum aos dois. E com essa história de “ficarem”, as coisas tornaram-se muito mais sérias. Nosso "ficar" durou três anos e alguns meses. O suficiente para que eu tenha tantas coisas ainda para viver até ali na frente.

Mas viver é uma tortura, por isso, estou decepcionado com certas coisas que me acontecem. Ainda mais quando perco.

Mas continuo, achando que a mulher dos trinta e cinco anos é a melhor fase da alma feminina.

Para terminar... Não uso calções coloridos para chamar atenção de “gatinhas” de 19 ou 20 anos. Isso é pedofilia das brabas.