NOITE DE NATAL

Este texto foi recebido pelo sargento Fernando,
em uma noite de Natal, em que ele estava de serviço.


Era noite de Natal, garoava e a água, pingo a pingo, caindo do capacete, por vezes inflitrava-se irritando, por dentro do poncho. Fazia frio.Verão esquisito nos pampas.

O soldado, sentinela móvel na cerca lá do fundo do Quartel, tinha seus pensamentos divididos entre o dever e a família.

Solidão de Homem-menino, passos ecoando no vazio, a silueta do Regimento destacando-se, iluminada, contra o negro do horizonte.

Seu turno de serviço, começara exatamente à meia-noite. Não uma qualquer, mas a do nascimento de um menino que aprendera a conhecer com a família religiosa.

Família! Os seus passos quase automáticos. O pensamento viajara até a cozinha, a casinha alegre e simples. Os pais e irmãos à volta da grande mesa da ceia. No jardim o pinheiro enfeitado, seu mundo seu tudo.

Uma lágrima teimosa rola pelas faces juvenis – “UM SOLDADO NãO CHORA” – rápido, o pensamento se lhe ralanceia, trazendo-o de volta à realidade. Estremece e resolve que foi apenas mais uma gota de chuva.

Luta para entender a necessidade daquele sacrifício. Porque de ser ele, a estar ali, pela primeira vez no Natal, longe dos seus? Porque ele? Fardado, arma pesando em seus ombros? - O SOLDADO é SUPERIOR àS INTENPéRIES; é LUTANDO CONTRA SI, VENCENDO-AS QUE NELE SE FORJA A TêMPERA DO COMBATENTE” – o pensamento, velos, novamente o sacode. Estremece e se apruma.

A cabeça, que pendera, começa a se erguer e o semblante demonstra que o homem venceu o menino. O olhar é de orgulho; no queixo, a determinação se desenha.

S úbito, alguém se aproxima. “FAçA ALTO, IDENTIFIQUE-SE. AVANCE A SENHA”, o ato é reflexo. A arma salta-lhe dos ombros para às mãos, à posição de tiro. O vulto para.

A voz lhe é conhecida e é a mesma que, a pouco, o trouxera do seu mundo-menino: - “SOLDADO JESUS, é SEU SARGENTO”.

JESUS, se aproxima do superior, apresenta-se, ouve, enquanto seu comandante lhe estende à mão: -“FELIZ NATAL, GUERREIRO”.

O sargento fita-o por um tempo, bate-lhe no ombro, deseja-lhe bom serviço e se vai.

CHUVA DANADA QUE TEIMAVA EM MOLHAR OS OLHOS DO SOLDADO JESUS.


Do sgt CHAVES a todos os soldados Jesus que estiveram de serviço neste Natal.

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