“PLOC”


Carlos Sampaio

1º Esquadrão
1º Pelotão
1976



 

Gosto das coisas que a maiorias das pessoas não gostam, nem de ouvir, nem de lerem.

Por exemplo, matar baratas passeando pela casa, é uma diversão certa para mim. Elas saem em diagonal, anteninhas ligadas, olham para você já zoando da tua cara.

O que mais me irrita são aquelas perninhas traseiras se cruzando uma com a outra, parece nos dizer, que o nosso medo é a salvação delas. Sim, elas correm, as mais espertas, voam, você se assusta e ela saí em disparada em qualquer direção. Comigo não funciona essa estratégia, a morte violenta é encontrada na sola do meu sapato ou a sandália, o que estiver na mão.

Esmagá-las com a sensação de uma missão cumprida, adoro ouvir aquele “ploc”. Você que está me lendo, já ouviu aquele “ploc” quando esmagamos uma barata?

Tentar fugir quando vê uma, será impossível ouvir o “ploc”. Estranho é esse tal medo que o inseto impõe nas pessoas, afinal, somos maiores do que a barata, entretanto, a maioria sai numa corrida desenfreada quando, por azar ou infelicidade, sei lá, cruza com uma delas sorrindo passeando na cozinha, na sala, no banheiro, nem se fala. Histerismo total. Eu ao contrário, adoro ver aquelas anteninhas num vai-e-vem frenético como analisando a situação no encontro casual com algum humano desatento. O diabinho corre para um lado, alguns de nós para o outro, até parece um ritual, quem tem medo de quem? Decididamente não tenho medo de baratas.

Dia desses encontrei uma diferente, ta ligado?... Era igual às outras, mas era diferente... Isso soube depois.

Abro a porta e, sempre quando chegava da Ulbra, a primeira coisa era ir para a cozinha ver se tinha alguma coisa para comer. Miojo, não agüentava mais miojo nas noites de sexta a segunda de todos os meses. Mas... O miojo perto do fogão me esperando estava aberto. Vi a anteninha, para lá e para cá. Silenciosamente tirei um dos sapatos e me preparava para ouvir “ploc” quando...

_ Opa! Pêra lá, meu... Vou avisando que não sou uma barata comum... Sou diferente.

“To louco, velho”? – Pensei – Devo estar estudando muito Direito Processual Civil com o Marco Antônio. Pirei na maionese. Uma barata falante?

_ Sou de um planeta distante do seu, a minha camuflagem foi do inseto que a maioria dos terráqueos não gosta.

Por incrível que possa parecer ela continuava falando:

_ Trago no meu corpo uma bomba que pode destruir o teu planeta. Basta você acertar-me com isso em sua mão.

Levantei o sapato e mandei ver.

Bummmmmmmmmmmmmmmmm!

Não vi mais nada. Estou vendo daqui de cima o que foi a terra um dia.

Não consigo mais ouvir “Ploc”.

Dez/2010